2 de junho de 2012

A falta que atormenta

Imagem do filme "A última noite"
Tem coisas que despertam o desejo, fazem-nos engasgar e tropeçar pelo chão, elas são sutis, silenciosas, afiam a alma, desafiam o corpo e riem do perigo. Apaixonar-se tem dessa malemolência que adormece o corpo atiçando o fogo logo em seguida para acordá-lo. É um mistério. Mistérios são pedaços da alma de Deus, do corpo do homem, tem luz de luar firme feito a noite lá fora. Os desejos inacabados, mais do que insatisfeitos, vem a tona e tomam pedaço a pedaço da alma faminta. Ora ou outra acontece e a gente acaba encontrando aquela falta que tanto atormenta.

15 de maio de 2012

Quem mora ali

foto de Alexa Meade
(http://www.flickr.com/photos/alexameade)

No silêncio eu não me esqueço de olhar para seus braços longos, suas pernas desnudas, tudo que é fonte do meu assombroso desejo. 
As fúrias indomáveis são as que antecedem a glória, conheço a fonte da fome porque um dia também estive insaciada.
Agora meu corpo canta com o momento da angústia penetrando na pele. 
Amor é essa coisa que se esquiva, desejo irreversível de ver e ser visto além do próprio corpo. Quem mora ali? Naquela profundeza que usurpa a alma? A minha pergunta é infinita, tem formas de mulher abandonada pedindo consolo.
Eu sei a que me movo, sempre atrás de sutilezas gentis. Meu corpo é mais alto do que eu, alcança longe as sensações que não consigo. Fecho os olhos,  sei que a vida é essa reticência breve entre escombros inabaláveis. Perco-me porque é o caminho mais certo à volta para casa. 

30 de abril de 2012

Da procura determinada

via web
Dor de diva encurralada, dor malcriada, mal posta, escancarada feito briga de boteco. Não conheci os males muito profundos da vida, não conheci o silêncio exato capaz de acalmar a dor, mas conheci você e penetrei mais fundo ao lado de dentro, além do sangue e dos ossos, ali onde o espírito permanece intocado. Desviei o rosto para não ver-te refletido profundamente em mim, ali estava teu nome, tua face, teus cabelos da cor do sol, teu sorriso gentil, tuas mãos, numa intensidade e furor que não dava para virar a cara, fingir que não estava lá, o coração palpitava sangrando, mais forte, mais fundo, além-mar. Tentei fugir, me aprofundar em questões ignoradas pelo corpo, atentar os olhos para o esquecido, mas como poderia? Depois de conhecer e admirar-te desconfiei de todos os outros. Procurei, tateei, rastejei, sondando um pedaço, um vestígio do que vi em teus olhos tão dispersos, mas ainda não encontrei essa visão, essa imagem igual a tua, como um anjo que se arrasta pouco abaixo do céu para acompanhar-me delicadamente.

18 de abril de 2012

Vaga para o amor

foto de Ludmila Barbosa

Desaprendo fazendo aquilo que quero
Vou dormir quando o sono pede
Vou comer quando a fome insiste.

Esse vazio em mim pede teu corpo
Um espaço suculento na pele é vaga para o amor.

12 de abril de 2012

Dias para a escrita

foto de Ludmila Barbosa


Há dias que são feitos para escrever, a alma escorre pelos cantos do corpo silencioso, os suspiros repousam entre uma ou outra reflexão e a ausência rege firme a sua melodia insidiosa. 

Esses momentos tornam a memória inquieta, são dias de lembranças opacas e anuviadas.

É quando a claridade se instala na poesia insinuante do corpo, na palavra suscitada no escuro, na confissão de amor pelo outro. 

E o corpo clama, como um vício à procura do encontro esperado para lhe saciar a fome desmesurada.

30 de março de 2012

Da existência

foto de Tiago Lima ( http://www.flickr.com/photos/tiagolima/)

O domínio próprio enraíza-se ou perde-se de maneira brusca e forte. 
É preciso prevalecer diante das lutas absurdas e dos desejos insaciáveis. 
É preciso suar na pele, sentir o odor adjacente da alma para compreender o princípio da existência.

17 de março de 2012

Perfeição

Foto de Tony Frissel - via web

Eu já passei por isso antes, essa angústia que parece envidraçada, algo como um suspiro estrondoso no meio de silêncios fartos. É exatamente como a clareza que me acorda agora, um assombramento divino, olho no espelho e os olhos estão compreensivos, mesmo que eu não entenda. A precisão e a certeza é aquilo que me consola profundamente nesse espaço pequeno de mundo, não são pessoas, abraços ou meros amores, mas o absoluto nas situações, no equilíbrio, isso é o que arranca do peito um tremor e o diz para repousar. A fração em que agora transbordo é exatamente a fração em que devo estar para compreender, feito vidente que entende os traços da palma das mãos. A perfeição é invisível, mas ora ou outra, ela dança gentilmente sob uma luz fosca bem diante de nossos olhos fatigados e salva-nos de um afogamento.

10 de março de 2012

Deslumbramento


foto de Keid-89
(http://keid-89.deviantart.com/)

Quero beijá-lo, quero perdê-lo dentro de mim, quero esquecê-lo em retratos, criar histórias e aprofundar toques e suspiros. O medo é o de não poder olhar esses olhos de tão perto, medo convicto de esquecer sem ter visto. Preciso dessa falta capaz de me atormentar para torná-lo meu afeto. Quero vê-lo sempre, quero sentir esse toque em minha pele e desfalecer de tormento lentamente, quero morrer, quero viver, quero chorar e sorrir, não há querer que me afaste dessa mensagem crescente na alma, não há história que percorra caminhos tão distantes a ponto de me alcançar como a sua me alcança e me atinge feito bomba. Estou destruída em pedaços, estou petrificada. Eu estou deslumbrada.

2 de março de 2012

Não me diga que é tarde

Imagem do filme "Luz Silenciosa"

Sinto muito se você não cresceu dentro de mim como uma árvore que rebenta dentro de uma casa, destruindo telhados, paredes e esticando os galhos pelas janelas. Desculpe se eu não soube te reconhecer de imediato e não deixei crescer aquela vontade súbita de amar-te, de querer-te indefinidamente. Desculpe, mas você não pode dizer que agora é muito tarde. Tarde é para as almas sem consolo que se perderam em praias desertas, prédios, ruas lotadas e asfixiadas. Tarde é para os que se recolhem na noite sem a fagulha que desperta a procura. 

10 de fevereiro de 2012

Da não compreensão

http://weheartit.com/

- Eu me perdi no derradeiro encontro. No momento em que vi aqueles olhos pulsou em mim outra alma, de diferente anseio, dona de diferente corpo, com diferente direção. Surgiu em mim o pulsar sanguíneo e vivo do coração... não, não é isso, o pulsar já existia, sempre existiu, o que aconteceu é que eu pude ouvir.

- E isso o que é? Angústia? Paz? Amor? Quer dizer, é amor, deve ser, mas o que faz esse amor?  É o que?

- Eu não sei. É tormenta e tempestade. É inocência. É uma mão que te agarra firme em qualquer lugar. Uma consciência nova, uma presença constante, é...   eu não sei. Eu não sei.

- Não entendo.

- ...

- ...

- Isso. É isso.

- Isso o que?

- É falta de compreensão.