Domingo, Dezembro 06, 2009

Férias

É muita coisa para uma Ludmila só. Agora que as férias começam a dar as caras, surge aquela necessidade insana de ir a praia, ter aquela sensação de calor subindo pela minha nuca e o vento que o mar traz consigo e aquele cheiro de areia. Venho sonhando com aquele céu azul desde sempre. Estou em fase de contentamento, fato. Além da outra necessidade insana (insana porque também compõe uma paixão) de ler os milhares de livros intocados guardados em meu guarda-roupa। Clarice, Moraes, Pessoa,Verissimo (o pai, não o filho) e tantos outros. Ah, como senti falta de todo aquele pessimismo adorável de Augusto dos Anjos. Agora, quem sabe, os terei todos, e deixarei a faculdade (razão de minha outra paixão) de lado por enquanto. Também é preciso paz, mesmo que eu não consiga medir minhas duas paixões e precisar qual se sobressai mais. A literatura é meu lado pacífico, que faz eu me apaixonar tantas vezes e ver todas as coisas com olhos muito mais intensos do que antes. A área da saúde é meu caos particular, que me tira do sério e da rotina chata e mórbida, é aquilo que me traz segurança e me faz sorrir, constantemente. Os dois não combinam, nem sequer tem um pé de semelhança, mas para mim, os dois unem-se em extremos opostos dentro de minha alma e me transformam nessa coisa estranha que se chama eu.
Falando nisso, preciso dizer, outro escritor surgiu em minha vida, bati de frente com ele quase que por acaso, assim sem querer mesmo e descaradamente, apaixonei-me novamente. Caio Fernando Abreu. Mais um para minha eterna lista de grandes amores. Onde vou parar?

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

23 anos


*Mais uma para meu aniversário no dia 30

Começo a aperceber-me das virtudes da construção do caráter
Que se instala levemente sobre meus ombros
Com a consciência real de que um adulto começa a surgir.

A suspeita de que nada daria certo
Afunda-se em um instante esquecido e lá permanece
Agora sei que certas coisas duram o tempo certo
Para serem absorvidos pela alma
E, em cima delas, surgem o princípio da paciência
Da consciência e da responsabilidade.

Minhas mãos desprendem-se para viver a vida
E lanço-me, de fato, sem qualquer proteção
Ao início da realidade
Para enfrentar todos os perigos oferecidos
E os prazeres suspirados.

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

...

Quantas vezes foram, pelo gesto absurdo, pela melodia assídua, que nos atiramos direto no fogo, de alma e coração, a fim de entregarmos tudo, inclusive aquele lado que não controlamos para ver se algum perfume, algum brilho permanecia lá dentro?
Quantas foram as vezes inexatas em que, exaustos, deixávamos que formigasse nossos pés e mãos só para sentir alguma coisa, só para saber se conseguíamos alcançar algo mais profundo do que a fachada que são esses olhos lacrimosos cheios de tanta paixão? Quantas vezes descansamos, imploramos, suplicando para que os espíritos nos dessem seu perdão?
Talvez a incredulidade tenha me mantido tempo demais com os pés firmes no chão e só agora começo a mover-me e dar os primeiros passos realmente fortes.
A liberdade nunca vem fácil, também é preciso praticá-la.
foto de Fabi Olive

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

A verdade sobre a poesia

Poesia não é feita para se traduzir nem para se concertar mais tarde, deve-se ingeri-la no modo da sua criação. A beleza vem da dança entre as letras primárias e sinceras e a harmonia entre elas. Só assim, pura, ela se torna inquestionável. Antes de entendê-la, é preciso vê-la incorporar-se no papel, ajustando-se delicadamente, e só quando elas estiverem confortáveis é que conseguiremos abstrair-lhes a verdade absoluta, seus temores, pesadelos, sonhos e segredos. Nesse momento é que descobriremos A Poesia, nua e incontestável.

Terça-feira, Julho 28, 2009

Sozinha

Eu sinto as desculpas em uma sombra de intuições a me acompanhar. Sim, eu bem poderia deixar-te qualquer coisa, um bilhete, um livro empoeirado ou uma foto antiga no porta retrato da sala, ainda assim você possuiria minha alma tão passivamente, pois não me despeço de teus pensamentos. Parece-me impossível mudar completamente por outro, subir escadas derrapantes, nunca desistir, mas cada uma dessas coisas compõe um pedaço de mim, me mostram o que não sei e montam um palco para uma peça da qual ainda não decorei o papel. Sei que esperei por muito tempo para permitir que as lembranças permanecessem sem a inveja de novos dias delicados. Agora sou essa peça inacabada que relê um velho livro, espera pela janta, toca violão e silencia mais do que se espera. Sou mais poesia do que vida e é exatamente esse tipo de coisa que nos define. O haver.
foto de Miriam

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Hapiness

"A felicidade só é real quando compartilhada"
Se eu fechasse os olhos e absorvesse toda essa luz ao meu redor, os outros seriam capazes de ver ou sentir como eu sinto?

Sinto-me absolutamente exausta, mas ainda há pingos de beleza que me permitem permanecer em paz, como hoje, quando um rapaz loiro, calmo, tímido, sentou-se ao meu lado no ônibus. Houve um momento inconcluso onde compartilhamos desde suspiros, leves toques de mãos impulsionados pelo ônibus, até os sonhos mais intensos que podem ser divididos.
Parti antes, sem deixar nada para trás, mas a lembrança dos segredos compartilhados em silêncio abriu-me portas que levaram-me direto a uma terna felicidade.

Foto de William Rosa

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Insistir

O tempo irrompe em nossos ouvidos, calmo e quase acolhedor.
Somos cansaços inúteis a percorrer e sabotar todos os desejos insidiosos da alma. E desejamos, com toda força com que se pode desejar algo, porque sabemos que é o que nos liberta da fadiga constante de permanecermos sempre no mesmo lugar.
Somos como a juventude que sempre quis ter tudo, mas nunca pôde sequer expressar-se e dizer a claros sons: "EU TE AMO". Porque "o amor resultou inútil" (como já dizia Drummond), e a intensidade com que amamos não é mais a certa - como aquele abrir de portas estrondoso.
Não corremos tanto quanto antes, os desejos se despedaçaram e o que resta agora ainda tão firme e pulsante é essa sede de apenas permanecer. E permanecemos como cantos em um quarto escuro, esperando pelo esplendor da abertura da janela e do sol nascente a nos iluminar, para que insistamos além do que nossa sanidade permite, a fim de permanecermos firmes e mais vivos que a própria sombra.

foto de José Louro